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Histórias de Absolvição

Libertado da Dor

      (AP, 22 de dezembro de 1997) Um pai pranteia a morte de seu filho assassinado por um viciado em drogas. Uma filha abandona a mãe alcoólatra e violenta. Um marido pensa em acabar com a própria vida ou tirar a vida da esposa que o abandonou.

      Um clérigo, uma mãe, um advogado — pessoas comuns que sofreram uma dor insuportável, até que deram fim a ela através de um ato fora do comum, o perdão.

      Fazem parte de uma tendência nacional que o aumento de reavivamentos religiosos, os movimentos de massa como por exemplo os Promise Keepers (Guardadores das Promessas) e best-sellers exaltando os pontos positivos do perdão, refletem. Suas histórias, porém, revelam que o caminho para o perdão é diferente para cada pessoa.

      Não foi fácil para nenhuma dessas pessoas perdoar nem algo que conseguiram logo de início. Cada uma chegou a isso em diferentes fases, às vezes até quando os seus atormentadores estavam impenitentes. Mas nenhuma delas se arrepende de ter perdoado.

      “A minha raiva desapareceu completamente”, afirmou Paulo, recém-divorciado. “Deus tem um plano. Ainda não o entendo, mas tendo em conta tudo o que Ele me permitiu passar, deve ser bom.”

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      O choque que o reverendo Walter Everett sofreu com o assassinato de seu filho Scott, de 24 anos de idade, transformou-se em fúria quando, depois de um acordo, o assassino foi condenado a apenas cinco anos de prisão.

      Quando o assassino, um viciado em drogas chamado Michael Carlucci foi condenado, declarou que apesar de suas palavras não parecerem sinceras para a família Everett, ele sentia muito pelo que fizera.

      Os amigos da família Everett consideraram essa demonstração de remorso como um golpe para obter leniência na sentença, mas Walter Everett, reverendo da Igreja Metodista Unida em Hartford, Connecticut, nos EUA, emocionou-se.

      No aniversário de um ano da morte do filho, redigiu uma carta para Carlucci, relatando o sofrimento de sua família, “a dor às vezes é insuportável”, e dizendo que não conseguia aceitar o fato de alguém ter tão pouca consideração por um outro ser humano. 

      E escreveu também: “Apesar das palavras parecerem triviais (mas é apenas o que temos no momento), aceito o seu pedido por perdão, e por mais difícil que me seja escrever isto, devo dizer-lhe que o perdôo”.

      Segundo o pastor, essas palavras foram um marco na sua vida. “Senti que o peso foi retirado dos meus ombros. Para mim foi o início da cura”.

      Mas não foi o fim. Seu casamento enfrentaria a separação, pois sua esposa não entendia o motivo do perdão. Quando o reverendo foi visitar Carlucci poucos meses após escrever a carta, sua fúria incandesceu dentro de si ao tomar conhecimento de que o assassino já fora transferido de uma penitenciária de segurança máxima para uma de segurança média.

      “A cura não vem imediatamente. Ela vem por etapas”.disse Everett, “É um processo pela vida afora”.

      No primeiro encontro, Everett estava falando de coisas triviais, mencionando que Carlucci engordara, etc., quando então o prisioneiro, que nunca fora perdoado por ninguém, estendeu os braços e o abraçou. Os dois começaram a chorar.

      Everett e Carlucci tornaram-se amigos. Foi o depoimento de Everett que ajudou a reduzir a pena de Carlucci, e este ia visitar Everett enquanto estava cumprindo pena em regime semi-aberto. Em 1994, Everett fez a cerimônia de casamento de Carlucci, e eles ainda se vêem regularmente.

      Everett jamais se esquecerá de seu filho assassinado, mas acredita que para podermos amar os nossos inimigos como Cristo ordenou, é preciso primeiro perdoá-los.

      “Quando olho para Mike, não vejo um homem que tirou a vida de meu filho, mas sim um homem que Deus transformou para sempre, e a isso eu dou graças”.

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      Quando o marido de Kate informou-lhe que convidara sua sogra para passar o Natal com eles, Kate ficou furiosa.

      Fora criada na pobreza, numa pequena cidade canadense. Sua mãe, com a mente entorpecida pela embriaguez, a espancava constantemente, deixando-a depois sozinha para cuidar de seis irmãos mais novos.

      Os ferimentos no rosto de Kate no dia seguinte não sensibilizavam de modo algum a mãe, que acusava a filha de mentir quando esta a confrontava com a verdade.

      Quando Kate, aos 20 anos de idade, começou a sua própria família, não pensou mais no passado. Mas depois que teve o seu quarto filho, o marido fez essa tentativa de reconciliação no Natal.

      Foi uma visita formal. Kate percebera que a mãe queria muito lhe dizer algo, mas estava decidida a não lhe dar a oportunidade, e recusou-se a levá-la ao aeroporto junto com o marido.

      Quando ela estava indo embora, disse: “Você acha que conseguiria perdoar tudo o que aconteceu?” Kate, na ocasião com 48 anos de idade, diz que foi tudo o que precisava ouvir, que aquela frase foi o início de um processo de cura absolutamente milagroso.

      Kate encontrara paz numa comunidade religiosa hutterite, onde todos procuram viver como os primeiros cristãos, mas sempre sentira o peso do ódio que carregava. Quando teve uma oportunidade, ela descobriu que queria perdoar.

      “Foi preciso apenas 30 segundos para reagir, porque num certo sentido era contra isso que eu lutara por anos”, disse ela. Ainda assim o perdão veio aos poucos. Levou anos para ela confiar na mãe ao ponto de permitir-lhe cuidar de seus filhos.

      “A primeira vez que ela quis me dar um abraço sincero eu fiquei toda tensa, porque o contato físico com ela anteriormente fora sempre violento.”

      Perdoar não é esquecer, e Kate não queria que fosse diferente. “Acho que nunca conseguirei esquecer tudo o que passei”, ela diz, caso contrário “não poderia me recordar do milagre que foi ter perdoado”.

     

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      Eduardo era um Jó moderno, a personificação do mistério divino de por quê acontecem coisas ruins a pessoas boas.

      No início da década de 90, ele tinha um próspero escritório de advocacia, os filhos na faculdade ou no pré-universitário e uma casa de verão em Vermont. Nessa ocasião perdeu a mãe depois de uma prolongada doença, e o pai morreu num acidente automobilístico. Sua empresa fechou e ele perdeu sua casa.

      Dois anos atrás, depois de 28 anos de casamento, sua esposa o expulsou de casa junto com o cachorro.

      Como Jó, Eduardo clamou aos céus. “Culpei a Deus, dizendo que Ele me dera o pior, que seria melhor eu me matar”.

      Ele ficou completamente dominado por “uma fúria incontrolável, ao ponto de até ter pensado em matar a minha ex-esposa”, contou o ex-fuzileiro naval ao seu grupo de apoio de católicos divorciados e separados, em Hamden, no estado de Connecticut, EUA.

      Sua esposa recusou veementemente as sessões de aconselhamento oferecidas pelo tribunal, declarando que o casamento estava desfeito para sempre. Mas a vida de Eduardo, de 54 anos, foi transformada pela oração e ao tomar conhecimento da posição da esposa. “A partir daí foi muito fácil eu perdoar. Minha ira diminuiu incrivelmente. Passei a ter uma paz imensa”, afirmou ele.

      Conseguia dormir à noite, e a fúria que sentira outrora fora substituída por uma sensação de serenidade. Hoje em dia, quando alguém o ultrapassa pela direita na rua, ele ri.

      Foi visitar outras pessoas e pedir-lhes perdão pelo mal que lhes causara. Agora ele tem um novo emprego aconselhando ex-viciados.

      Sorrindo e fazendo um “positivo”, Eduardo nos conta a ocasião em que descobriu que sofrera uma transformação: quando conseguiu ser educado com o namorado da ex-esposa, que a acompanhou ao casamento de seu filho pouco tempo após o divórcio.

      “Sei qual é a minha posição perante os homens e Deus, e é só isso que importa.”

 

O perdão tem poder

Jane Lampman, The Christian Science Monitor, 28 de Janeiro de 1999

O pequeno Davi e seus pais estavam passando por uma época dificílima. Num exame ele fora diagnosticado como hiperativo e também era considerado insolente na escola e em casa. Aquele menininho sardento e ruivo, de sete anos, não conseguia controlar sua ira. Numa semana mais tumultuada a situação chegou a tal ponto que ele passou o fim de semana internado.

Seis meses depois, Davi estava muito mais feliz: encontrara uma nova maneira de controlar os seus sentimentos, ele não precisava mais tomar Ritalin nem Prozac, e o relacionamento entre os pais melhorara. Começou a sair-se bem nos estudos.

Tanto ele como os pais encontraram uma “terceira maneira” de lidar com a ira. Em vez de negarem-na ou darem vazão a ela, aprenderam a perdoar. E essa saída que encontraram é algo que tem sido muito explorado no mundo inteiro hoje.

“O perdão tem um poder extraordinário de cura na vida dos que o utilizam”, afirma Richard Fitzgibbons, o psiquiatra na Filadélfia, EUA, que trabalhou com Davi e que é um dos pioneiros no campo de saúde mental, na utilização do perdão para a cura.

Quer sejam pequenos erros, quebra de confiança ou grandes crimes e injustiças, a maioria das pessoas enfrenta ressentimentos e rancores que podem surgir quando alguém acha que foi maltratado. O fato de muitas pessoas não conseguirem lidar com esses sentimentos de uma forma eficaz é claramente visto na violência existente nas escolas hoje em dia, nos altos índices de divórcio e de espancamentos no lar, no consumo de drogas e de bebidas alcoólicas e também no grande número de crimes, guerras étnicas e terrorismo.

Algumas pessoas encontram um raio de esperança no redescobrimento do perdão. Consideram-no potencial não só na vida pessoal, mas também nas relações na comunidade e a nível nacional e internacional, e muitas estão colocando isso em prática.

O perdão é um assunto em voga em muitos campos atualmente, desde as pesquisas acadêmicas a aconselhamento conjugal e familiar à política e vida dentro da comunidade. “Antigamente o perdão era considerado o ‘andar uma milha a mais’ em termos de misericórdia para com alguém que o ofendia como se esperaria de um cristão, atualmente o perdão está sendo redescoberto como uma capacidade humana com poder para superar a hostilidade”, afirma Lewis Smedes, mestre emérito de teologia e ética no Seminário Teológico Fuller em Pasadena, na Califórnia, EUA, em seu livro Dimensions of Forgiveness (As Dimensões do Perdão), 1998).

“O perdão é mais do que um valor moral imperativo ou um ditame teológico. Considerando-se nossa condição humana imperfeita, é o único meio de superar-se o ódio, o sentimento de condenação e poder continuar-se evoluindo e amando”, diz Paul Coleman, psicólogo em Wappinger Falls, Nova Iorque, cujo trabalho “rejuvenesceu” quando ele começou a plantar essa semente nos seus clientes.

O perdão tem um elemento espiritual, afirma o Dr. Coleman, uma graça divina, por assim dizer, e nesta última década a espiritualidade tornou-se um pouco mais aceita no campo da saúde mental.

O Dr. Worthington, autor do livro To Forgive Is Human, (Perdoar é Humano) diz que o ingrediente chave é a empatia. “O grau de empatia da pessoa está diretamente relacionado com o grau de perdão”. Vendo-se o que tem acontecido no mundo, acrescenta ele, o perdão tem o potencial para ser uma influência descomunal no século XXI. Segundo, em breve também as pesquisas revelarão que é muito bom para a saúde não só perdoar um acontecimento ou uma pessoa, mas também ter um caráter perdoador.